"ENTRE NÓS E AS PALAVRAS, O NOSSO DEVER DE FALAR" Mário Cesariny, in:Pena Capital
Terça-feira, 18 de Julho de 2006
Parabéns, Gulbenkian!

1952. A minha aldeia é um ponto minúsculo do mapa. A estrada esburacada dizia-se tipo McAdam. Em casa, começava a aparecer uma grande comunidade, com seis filhos, comum para a época. Quase tudo era comum. O candeeiro a petróleo era a chama à roda da qual tudo se resolvia durante a noite. Na cozinha era sinal de ceia, na sala, de rezar o terço e sopro no morrão, sinal de que era hora da deita.

Também  na tripeça, garfos em ferro, faca para cortar a broa ou um pouco de toucinho, e cada um em seu banco, construído em relação à idade, saciava o apetite na bacia comum.

Foi neste ambiente que comecei a crescer.

4 anos depois, nasce a Fundação Calouste Gulbenkian. Não sei como, mais esperta que o próprio Estado, deu com a minha aldeia. E logo ficámos amigos.

Um dia, naquela estrada esburacada aparece uma carrinha esquisita, com portas de correr e com dois homens lá dentro e por fora escrito: Biblioteca Itinerante.

Era um dia especial, pois além da bicicleta do padeiro e do sardinheiro, só o carro velho do prior ou o bólide do americano, sr comendador, quando  ali aparecia de férias.

Ansiava crescer deveras para subir aquele degrau da porta da carrinha, na qual os meus amigos mais velhotes se empertigavam.

Com os meus 7 anos abeiro-me daquela viatura carregada de sabedoria.

Em pouco tempo a divisão entre a cabina e as estantes transforma-se em balcão. Um dos funcionários, de cigarro na mão, olha-me de alto a baixo, adivinhando a minha ansiedade.

- Então rapazito, já sabes ler?

- Já, pois! Respondo meio envergonhado.

- Ora lê lá aqui as letras mais pequeninas....

E apresenta-me aquela caixa com  que acabara de acender um cigarro. Um pouco a soletrar lá digo:

- Fós......Furos!!!

Não relacionei de imediato com o palito de ponta vermelha,  e, por isso, a acentuação saiu estranha. Mas fiquei aprovado!!!

 

- Entra lá. Vamos preencher a tua ficha para teres um cartão. Mas cuidado! Só podes levar livros ali daquela estante!

Era ele que me ia indicando os livros que podia levar. E foi assim que comecei a conhecer o mundo maravilhoso dos cinco, pela Enid Blyton, depois os grandes clássicos Portugueses, Camões, Camilo, Júlio Dinis, Eça, António Nobre, Herculano, entre muitos outros que, mensalmente, preenchiam o meu tempo livre.

Depois veio a luz eléctrica. O pai comprou uma secretária para a sala e sobre ela um pequeno candeeiro eléctrico. Mas não tinha permissão de ler  à noite porque a conta da luz subia de imediato. Mas lia.

Um dia bem me lembro, mudei de estante. Já podia ler outras coisas. 

Também me recordo do dia em que, todo inchado, regresso a casa, com o David Copperfield debaixo do braço. É que o livro era volumoso e dava-nos um ar de certa importância... E com Charles Dickens vieram muitos outros, como Victor Hugo, Júlio Verne... Uma enorme viagem que nunca vou esquecer.

Mais tarde volto a encontrar a Fundação. Fui Bolseiro em Barcelona.

Minha irmã, hoje economista no Ministério das Finanças não tinha direito a Bolsa da  Universidade. Mas pelas notas que tirava, tinha direito à da Fundação.

Meu filho, também pela classificação, foi bolseiro no Conservatório em Coimbra.

O apoio, pela competência, foi a forma que Gulbenkian deixou no nosso País.

Que bom seria que fosse sempre o nosso lema!

Ainda bem que Calouste Sarkis Gulbenkian  adoptou Portugal como  seu jardim de vida.

Hoje a Fundação faz 50 anos,  e 51 que esse Bom Homem  partiu. Mas deixou-nos uma enorme riqueza que, felizmente, ainda podemos partilhar.

É quase a minha idade.

Sempre acompanhei a vida da Fundação, que me prezo de conhecer.

Cresci, mas a minha altura é um ponto minúsculo, inserido no recanto da minha aldeia, quando comparados com a imensidão generosa da Fundação.

É por isso que também eu me associo às comemorações dos  50 anos.

Os meus parabéns  e agradecimento ao Homem Gulbenkian e a todos aqueles que, com muita competência, têm feito da Fundação Gulbenkian um exemplo.

Portugal é grande, mas com enormes dificuldades que todos conhecemos.

Se me perguntassem como gostaria de ver o meu País, responderia sem hesitar:

Como a Fundação Calouste Gulbenkian.

Bem hajas Gulbenkiam!

Consulte:

 http://www.gulbenkian.org/portal/index.html

http://lamire.blogs.sapo.pt/14236.html



publicado por lamire às 10:38
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2 comentários:
De j.a. a 23 de Abril de 2009 às 19:57
olá, gostei bastante do teu post,

tb fui utilizador destas bibliotecas e que boas recordações guardo!

vim aqui parar pq precisei de uma foto das famosas carrinhas, não sei se sao tuas mas ja roubei uma....

cumps,
ja


De grupocantaresdecondeixa a 24 de Abril de 2009 às 14:13
Está à vontade para guardar todas as fotos. Elas também me dizem muito, fui eu que as tirei, mas a partir do momento que as divulgo é porque as amo e assim as entrego.


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